Era um dia cinza, e esse tom predominava nas pessoas
que passavam por nós, autômatos sem sorrir, todos fitos em seus
destinos, andavam como se não houvesse ninguém a sua volta, nem
flor, nem gente, apenas pés e uma implacável vontade de chegar. Uma
moça e um moço que por descuido se chocam, e nesse momento tem se a
impressão que por uma leve fração de segundos eles deixam de ser
cinza, os rostos se coram, um pequeno brilho em seus olhos, mas
esse momento passa, voltam a ser taciturnos autômatos, cinza,
cinza, cinza.
E a mim resta o medo, o medo de ser cinza também, de
apenas andar, andar, andar, sem saber exatamente para onde estamos
indo, apenas indo. Nesse momento minha pequena apertar com força
minha mão, sinto que meu medo é seu medo, ela, eu, cinza não
queremos tornar, ela com seu jeito sorri e de seu sorriso brota um
arco-íris, que nos guia até o refúgio de um banco de
praça.
E nesse banco brincamos de faz de conta, faz de
conta que o hipopótamo se equilibra no fio de eletricidade, faz de
conta que ele acha graça disso tudo, ri desse cinza todo e seu riso
multicor imunda a praça e a transforma em oásis no meio de um mar
de cinza. Sacamos de um chiclete e começamos a brincar de bolinhas
de chiclete.
E sopramos nossas bolas, cada vez mais, e elas
crescem, crescem, crescem tanto que elas nos levantam e nelas
voamos, estamos dentro delas, voando vemos que por todos os fios de
eletricidades existem hipopótamos multicores que transformam o
cinza do dia em arco-íris, e as pessoas sorriem, e parecem que
todos se amam como irmãos. Nisso uma leve brisa nos leva de novo ao
banco da praça e plock, nossas bolas de chiclete estouram, nos
levantamos e seguimos nosso caminho por um mundo menos cinza, com
alguns hipopótamos multicores se equilibrando em fios
elétricos.




































